segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Só entende quem namora

E se eu quiser ficar mais um pouco, se eu quiser te ligar fora de hora, se eu quiser te chamar pro cinema domingo à noite? E se eu quiser te apresentar pros meus amigos, te convidar pra almoçar na casa do meu pai, se eu quiser fazer ceninha de ciúme, se eu quiser comprar uma camiseta pra você? O que eu faço se eu quiser te chamar por um apelido inventado, se eu quiser ver filme no sofá com você, pipoca e pijama, se eu quiser te ligar pra saber se você chegou bem em casa? E se eu quiser te chamar pra dormir lá em casa e ficar o dia seguinte todo?

E se eu quiser reclamar do seu quarto bagunçado, se eu quiser achar sua amiga oferecida, se eu quiser perguntar de quem era aquela escova de cabelo no chuveiro? E se eu quiser sair sem te avisar e ficar com remorso depois, se eu quiser que você pegue um trânsito pra me buscar no aeroporto, e se eu quiser que você deixe de ir jogar bola pra ir no shopping? E se eu quiser brigar por causa de TPM, te ligar porque fui assaltada no ônibus, se eu quiser te chamar de mentiroso só porque você não quis me ver?

E se eu quiser ser eu mesma, todo dia, o tempo todo, pode?

Pode.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Roubo as estrelas lá do céu

Oi, hoje eu lembrei de você. Não que eu não pense todos os dias, mas hoje foi diferente: imaginei como seria se você ainda tivesse aqui. Ouvi aquela música que você cantava só pra me ver dançar - e eu adorava me mostrar pra você, aí deu uma vontade enorme de dançar mais uma vez pra você me olhar. Certamente você me achava mais desajeitada do que qualquer coisa, mas eu escuto até hoje essa música lembrando de você rindo da minha falta de ritmo. Lembro que você fazia de tudo pra me deixar menos tímida, e olha, acho que segui isso ao pé da letra. Ninguém mais diria que eu sou tímida, na verdade eu até falo pelos cotovelos, você nem iria me reconhecer mais. Claro que não sou tão popular quanto você, nem poderia, acabei ficando séria mais cedo. Não tenho aquele teu sorriso aberto e nem sou tão simpática quanto você queria, mas olha, a timidez foi embora. Também fiquei meio adulta antes da hora, uma coisa besta de não aceitar ajuda de ninguém, de não chorar na frente dos outros. Acho que tem um pouco teu aí, você foi embora cedo e eu passei a fingir que sou forte. Besteira minha, eu sei. Sei que você não aprovaria também meu sedentarismo, provavelmente eu continuaria bem mais saudável se você não tivesse indo embora, talvez até seria uma atleta profissional, como você sempre quis, já pensou? Mas não, virei sedentária, gosto mais da noite do que do dia, adoro um vinho em casa e fora de casa, virei fumante. Mas não se preocupe, tá tudo mais ou menos certo com a minha saúde, tirando umas recaídas esporádicas da minha garganta, você sabe que ela sempre foi meio problemática. Minha vida amorosa também vai bem, daquele jeito que era mais ou menos, não mudou muito. Continuo me apaixonando demais e pelas pessoas erradas, mas cada vez com menos frequência, deve ser coisa da idade. E continuo superando todos eles, todas as paixões exageradas e pelas pessoas erradas acabam no fim das contas. Talvez você até se divertisse com algumas histórias, sabe, você nunca teve muito ciúme, sempre defendeu esse amor livre e sincero que as pessoas tanto criticam e julgam; você não, nunca foi de julgar ninguém, e eu aprendi também muito isso com você. Aprendi a ver as pessoas com olhos bonitos, sabe, sem preconceitos. Acho que você ia gostar de me ver hoje, de ver como eu cresci sem você - ou apesar disso. Sim, você ia adorar saber que eu sei cozinhar, me viro muito bem com pouca coisa na geladeira, tá? Acho que você ia se orgulhar no fim das contas. Aprendi um monte de coisa, passei pra mesma faculdade que você, sei falar espanhol, me virei um ano sozinha em outro país. Como você queria, sem muita gente cuidando de mim, sabe?

Mãe, hoje eu pensei em como seria se você ainda tivesse aqui, e não chorei, juro. Até ri em alguns momentos. Talvez por causa daquela mania besta que eu te falei antes, de não me permitir chorar. Ou pra que você não achasse que tá tudo errado sem você.  Você deveria estar aqui, eu sei, mas tá tudo bem mesmo assim. Não se preocupe.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

João e Maria

Votem no João e Maria, no concurso 'Eu Amo Escrever': http://tinyurl.com/3fwh6dn

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Te adorando pelo avesso

Sei lá porque, mas me deu raiva de você, raiva de tanto afeto, de tanta expectativa, de tanta espera inútil. Deu raiva de ter anotado seu telefone, de ter te ligado na semana seguinte, de ter te comprado flores no nosso aniversário de um mês, de ter chorado na primeira vez que você me disse eu te amo. Sei lá, me deu raiva de você ter sido tão importante na minha vida, de eu ter deixado você entrar assim, como se não doesse esse negócio de se apaixonar, como se fosse só coisa boa, só café da manhã na cama e massagem no ombro. Sei lá porque, mas me deu raiva de ter te traído um ano depois, de ter me envolvido com tanta gente sem importância, de ter deixado você me perdoar por tantas vezes. Me deu raiva desse teu sorriso indulgente, dessa tua mania de me amar mesmo sem eu merecer, dessa tua esperança ingênua de fazer a gente dar certo, mesmo sabendo que não. Eu sei lá porque, mas acho que tenho raiva mesmo de você, desse teu querer desesperado que me entende sempre que eu chego em casa e invento uma desculpa qualquer pelo porre, dessa tua compreensão, desse teu olhar infeliz ao meu lado. Sei lá porque, mas me deu raiva da nossa casa que cheira a cigarro e a cerveja, mas não aquele cheiro de festa, só de ressaca. Sei lá, me deu raiva da nossas tentativas frustadas de tentar mais uma vez, e outra e outra, dessa insistência insana e louca, dessa dependência maluca, de um amor que não tem mais cheiro, nem gosto, nem nada.

Sei lá porque, mas me deu uma raiva enorme de você. Mentira, eu sei porque. É que eu te olho no olho e só vejo a mim mesmo.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer

Aqui já são quase 8h da manhã e eu queria te dizer que não dormi ainda pensando no seu sorriso. Que já escrevi e apaguei seu número tantas vezes no meu teclado que decorei ele de trás pra frente e inventei novas combinações. Que nem os diálogos que já inventei de todas as maneiras possíveis e que começam sempre com um 'morro de saudade' e terminam sempre com seu sim. Quase 8h e o tempo nublou, apesar daquele vento úmido da praia e me lembrei daquela vez que terminamos a noite vendo o sol nascer na praia, você rindo do jeito que eu andava descalça e desequilibrada na areia, duvidando que eu tivesse coragem de entrar no mar daquele jeito. Essas nuvens que começaram a se formar agora me lembraram do nosso 1º beijo, aquela fumaceira na boate já meio vazia, todo mundo já cansado e a gente dançando sozinhos, como se fosse a primeira música da noite, aquela sensação boa de  ninguém mais existe agora, que me fez esquecer que eu acordaria em poucas horas pra ir trabalhar.

Agora já são 8h e eu ainda não tive coragem de escrever esse maldito torpedo porque não escolhi as palavras certas, quem sempre escolheu as palavras foi você, eu sou mais de sons, imagens e cheiros, lembra quando eu recebi aquele email teu de quase 50 linhas e respondi só com duas? Você achou um absurdo tã pouco romantismo, mas aí eu peguei a máquina e mostrei mais de 100 fotos suas e fiz você rir. Já passa das 8h e eu continuo pensando só no seu sorriso, esqueci de dormir e vou esquecer de almoçar, provavelmente por causa dele. É isso que eu queria te dizer, que seu sorriso me faz perder a fome, o sono, o sossego, a paz de espírito, que não consigo mais pensar em outra coisa desde que foi embora e me deixou aqui.

Mas se já são mais de 8h, devem ser umas 5h aí, tá tarde demais pra mandar esse torpedo. Melhor deixar pra outro dia. Não vou perturbar teu sono não.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A gente era obrigado a ser feliz

O João nasceu esperto, sabe olhar que só gente esperta tem, aquele sorriso dos espertos estampado no rosto? João nasceu assim. Ele é moreno igual a você, mas com meu cabelo cacheado, uns cachos lindos naquela carinha de esperto. Falou cedo, correu cedo, cedo virou o espertinho da turma, desejado pelas meninas, não por ser lindo, embora seja, mas por ser feliz. João nasceu esperto e vivia feliz por causa disso.

Já a Maria nasceu séria. Não porque quisesse, mas porque era. Era séria mesmo sorrindo, com aquele meus olhos verdes fracos por trás do sorriso. Ela puxou os meus olhos, mas tem teu corpo, anda igualzinho a você, daquele teu jeito de andar que eu não sei explicar, sabe? Mas a Maria não tem teu brilho, é meio apagada, e eu percebo que ela te olha admirada quando você tá ali no meio da roda e todo mundo te ouve. Ela queria ser como você, mas ela puxou a mim e nasceu séria. Não é que seja triste, é tão feliz quanto o João e até tão esperta quanto ele, mas esconde isso tudo nos meus olhos verdes fracos.

E o que vai ser deles agora que você quer ir embora? E todos os nossos planos de morar perto da praia, numa casa sem paredes, todo mundo misturado com o nosso cachorrinho? Como vão ficar nossos filhos, como vão ficar João e Maria sem você?

Não vão ser, nem vão existir. Esquece isso de nossos filhos. Eu não te amo mais.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ainda espero resposta

Eu não deveria te escrever esse email, eu nem estou tão bêbado, mas queria te dizer que não consegui dormir direito essa noite, que todos esses bares novos me fazem lembrar do nosso bar, que todas as meninas daqui usam franja e eu me lembro de você passando a mão no cabelo a cada 2 minutos pra ajeitar a sua, mas que elas não têm nem de perto seu senso de humor, só o cabelo liso escorrido na cara. Eu não sei qual é o objetivo desse email, eu só bebi três taças de um vinho barato do bar, mas precisava te dizer que pode ser que você seja o motivo da minha insônia, e eu não posso confessar isso a mais ninguém que não seja você. Eu sei que essas linhas não fazem qualquer sentido agora, eu sei que você escolheu o outro - bem escolhido por sinal - mas eu precisava te dizer que voltei do bar e reli toda a nossa história, busquei teu nome na minha caixa de entrada e tava tudo lá, tudo que eu custei tanto a entender. Eu sei que você deve ter apagado todo esse lixo do seu email, que é pessoa ocupada e não tem tanto espaço na caixa, e que ele também é ciumento e não ia gostar de achar nada disso nas suas coisas, mas eu precisava te escrever só pra contar que eu queria ter visto tudo isso a tempo, que eu passei a noite mal dormida fantasiando nosso romance que nunca aconteceu.

Eu sei que não deveria te contar nada disso, mas é que eu sou mesmo egoísta, tenho mesmo medo de viver certas coisas e que, agora que elas não são mais plausíveis, elas não me assustam tanto. Me deu vontade de compartilhar isso com você, de dizer que você estava certa, que ela era mesmo menos interessante, que eu sou mesmo um mulherengo inveterado, que morro de medo do seu mundo de gente grande, que não tenho ambição, embora tenha tido coragem de me demitir na semana passada e de viajar sozinho por minha conta. Eu sei que agora é tarde pra dizer que me fizeram uma ótima proposta de trabalho e eu já penso finalmente em me mudar, que me livrei daquela ex, que não passo mais as tardes buscando outras na minha agenda do celular, de que eu tenho certeza de um monte de coisa.  Eu nem sei realmente se eu deveria te escrever todas essas coisas agora, nem se eu vou ter coragem de apertar o botão de enviar, ou se essas palavras vão ficar pra sempre nos meus rascunhos, igual a nós dois, que nos tornamos um amor só de rascunhos. Eu nem estou tão bêbado assim, foram só três taças de um vinho barato naquele bar que me lembrou o nosso e onde as meninas todas eram sérias mas tinham franjas caindo na cara.

Eu nem sei porque eu escrevi isso afinal, foi só uma insônia besta, uma vontade que já passou. Isso tudo porque eu coloquei teu nome no google antes de dormir e achei um texto teu. Eu li. Ainda dá tempo?

sábado, 23 de julho de 2011

Eu vou te deletar, te excluir do meu orkut

Ela é dele, pelo menos daquela bolinha laranja que insiste e insiste e insiste, piscando o tempo todo no email dela. Ela é dele quase 24h por dia, ou 8h, que é amor só de horário comercial e dia útil, sem fim de semana. Ela é dele nos post dramáticos, naquelas músicas melancólicas que recomenda do youtube, nos seus nicks bregas que ele curte e nas rapidinhas de 140 caracteres, o amor dela virou coisa pouca de 140 caracteres. Ela é dele nos emails que ela repassa para as amigas, que acompanham todo aquele lenga-lenga, que se diz bate-papo e é lero-lero, e dão palpite com a resposta que deveria ser a mais sensata, mas que ela nunca dá. Ela é dele naquelas orgias verborrágicas de indiretas e entrelinhas, naquelas letras bestas que eles trocam só por trocar, pra manter aquele contato irreal, surreal,  virtual. Ela é dele mesmo ausente, mesmo ocupada, mesmo invisível, mesmo bloqueada. Ela é dele mesmo quando a conexão cai.

Era. Até que um dia ele mandou uma nota oficial por email. Estava em um relacionamento sério na vida real.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Acabou chorare no meio do mundo

(Ela riu, ele riu de volta, aí o céu abriu, a lua ficou mais cheia, o olho brilhou. De novo. Ela riu, ele fez que ia falar alguma coisa, mas não importava o que ele falasse, o céu já tinha aberto, a lua já estava no seu auge e o olho era só brilho. Ele então chegou bem pertinho dela, a respiração dos dois se falando entre eles, e era só silêncio fora e só barulho dentro, que nada precisou ser dito. Ela só riu, ele segurou no queixo, olhou profundamente dentro daqueles olhos pretos enormes e riu de volta, a boca já começando a abrir, uma boca que só fechou quando o dia acabou e a lua cheia deu lugar ao sol)

Eu nunca mais vou sentir isso, ela se questionou, nunca mais brilho fosforescente, lua imensa, coração disparado. Nunca mais primeiro beijo, primeiro frio na espinha, primeira troca de suor. Nunca mais aquele cansaço bom, aquela paz de espírito, nunca mais aquele pouco medo de tudo, da nenhuma preocupação que não fosse aquele momento, aquela primeira vez de quando duas almas pensam que se encontram de tal maneira que até o zombido da abelha faz sentido. Nunca mais aquela cosquinha, aquele risinho no canto da boca, nunca mais aquela espera infinita dos dois segundos que antecedem a primeira vez. Nunca mais, ela se repetiu e repetiu e repetiu, naqueles milésimos de segundos desde que ele olhou ansioso nos olhos dela e ela lembrou da primeira vez que ele riu de volta. Ele se impacientava, esperando aquela resposta, e então Maria?.

Ela riu, ele riu de volta, o céu abriu de novo, a lua ficou mais cheia, o olho brilhou: aceito.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Idem

Ele só queria paz. Aquele peso todo, de onde tinha vindo? Ela tinha virado aquela pessoa que chora gritando, sabe aquele choro soluçado? Era a última imagem que ele tinha dela. A leveza tinha virado grito histérico, pedido, lágrima. A leveza tinha virado humilhação. Até o sexo era choro: ela compensava a insegurança no sexo, que era agora só um ato doído pros dois. Ela só sabia chover, e ele queria sol. Me diz, o que eu fiz?, ela perguntava naquele temporal de lágrimas e ele não sabia o que dizer, eu só quero sol, como se explica isso? Não sabia dizer, então beijava-lhe a face, cada beijo um aceno de adeus. Só não sabia dizer porque queria ir. Ela esgotada de tanta lágrima, olhava no espelho ele, uma escova de cabelo na mão, e uma derrota tão evidente que doía mais. Eu tentei fazer você me amar. Tentei todos os dias, quase te forcei, quase te inundei com a minha presença, quase te sufoquei de tanto amor. Eu tentei te conduzir sempre, ela dizia, porque sabia até onde a gente poderia ir. Ele olhava, mas quem disse que era isso que eu queria?, eu tinha me apaixonado exatamente pelo oposto, pela calma, pela ausência, pela pouca pressa. Eu me apaixonei porque você me esquecia, porque me fazia rir e não chorar. Lembra quando a gente não chorava? Lembra de quando você chegava de madrugada feliz e só me beijava e nada mais tinha importância, nem aquele teu cheiro de homem no pescoço? Eu te amava por isso, porque era simples, porque a gente só queria saber de ser feliz e de dançar até esquecer o nome, porque a gente cantava de manhã quando acordava, porque as nossas mãos se encontravam inconscientemente dormindo. Agora você me abraça tanto que eu nem respiro e acordo sufocado. Eu te amei pelo oposto do que você é, Diba. Eu te amei, mas não te amo mais. Amava a outra, que é leve, que não chora gritando, que não me sufoca dormindo.

Ela morreu, ela chorou de novo, e foi no dia em que você chegou.