Tô precisando de um amor recíproco. Tô precisando de sorte. De querer as pessoas certas, de ficar com a parte boa da paixão, de ser feliz e não só intensa. Tô precisando voltar a acreditar nas pessoas. Tô precisando me entregar sem medo, precisando amar mais e brigar menos, tô precisando entender. Entender as pessoas às vezes dá certo, sabia? Tô precisando ser entendida também, precisando de cafuné, de olho no olho, de massagem no pé. Tô precisando de alguém que saiba que eu espirro sempre duas vezes seguidas, e não uma, nem três. Que saiba o tamanho do meu pé, a minha loja preferida, o nome das minhas gatas. Tô precisando de alguém que saiba meu telefone de cabeça, sabe?
Tô precisando de um amor recíproco. De alguém que diga que vá me ligar e eu tenha certeza, absoluta, de que sim, ele vai ligar. Tô precisando de alguém que saiba o que eu quero dizer, mesmo sem eu dizer, de alguém que escute minha música preferida e lembre de mim, de alguém que me ligue pra contar como foi o dia. Tô precisando, sabe? De alguém que me leve comida na cama, que cuide de mim quando a bebedeira bater forte, que me faça rir. Porque no fundo, lá no fundo, o amor recíproco é só isso, alguém que te faça rir. É só isso que eu preciso, mais nada.
Pode ser você?
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Tempo, tempo, tempo, tempo
Olhou, olhou, olhou. Já tinha olhado tantas vezes naqueles 40 minutos e mesmo assim não se convenceu. Testou o sinal, testou a altura da campainha. Ligou pra amiga, conversaram sobre amenidades, acendeu um cigarro. Olhou, olhou, olhou. Mais quarenta minutos, o mesmo visor preto, sem sinal de resposta. A luz acende, mensagem da operadora. O telefone toca, ligação do chefe. Olhou, olhou, olhou. A amiga que tinha falado de amenidades resolve ligar de novo. O coração se apressa. À toa.
Mais 40 minutos e ela quase desiste. Não pode ser em tão pouco tempo que a gente surta. Outro cigarro, água, café, esquenta o pão. Olhou o relógio, olhou o visor, outra vez. Olhou, olhou, olhou. Silêncio maldito de dentro, que não passa, que não anda. Dá até pra escutar o coração quase.
E aí, então, ele toca. Ela atende, fingindo pouca pressa. É a voz certa. O sorriso deixa de caber na cara. Valeu cada minuto da espera.
E aí, então, ele toca. Ela atende, fingindo pouca pressa. É a voz certa. O sorriso deixa de caber na cara. Valeu cada minuto da espera.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
O destino sempre me quis só
"Solitária. É isso que eu vejo. Solidão". Foi a mãe dela quem deu o veredito final, mas poderia ter sido ela mesma. O reflexo era óbvio, mas a gente demora a enxergar o óbvio e ainda mais ela, que ficava sempre naquela eterna e insana busca das qualidades das pessoas. Mas ela agora olhava de novo o reflexo, e era tão óbvia aquela solidão. Ela pensava no começo que era por medo, trauma, fuga. Mas não. Era solidão de quem afasta as pessoas. Era solidão pensada, desejada. Até, será que podia julgar?, merecida. E tem gente que merece solidão?, ela pensou enquanto voltava no tempo buscando em cada retalho um motivo pra tanta raiva. Não achou.
Solidária, ela tentou afastar a solidão. Tentou abrir portas e janelas, mostrar a luz do sol, tentou ensinar que tem sempre um arco íris depois da tempestade. Tentou mostrar uma vida menos amarga, não que ela não fosse também um pouquinho amarga - todo mundo que já passou por essa vida herda um pouco de amargura - mas a capa de chuva já era impermeável. Não entrava mais sol. Não entrava carinho. Não entrava amor. Era só solidão e chuva e desespero e raiva. Tudo por dentro da capa de chuva colorida, que até fazia as pessoas acharem graça no começo. Mas dentro, lá no fundo, era só chuva e solidão.
Porque nem todo mundo está pronto pra ser feliz.
Solidária, ela tentou afastar a solidão. Tentou abrir portas e janelas, mostrar a luz do sol, tentou ensinar que tem sempre um arco íris depois da tempestade. Tentou mostrar uma vida menos amarga, não que ela não fosse também um pouquinho amarga - todo mundo que já passou por essa vida herda um pouco de amargura - mas a capa de chuva já era impermeável. Não entrava mais sol. Não entrava carinho. Não entrava amor. Era só solidão e chuva e desespero e raiva. Tudo por dentro da capa de chuva colorida, que até fazia as pessoas acharem graça no começo. Mas dentro, lá no fundo, era só chuva e solidão.
Porque nem todo mundo está pronto pra ser feliz.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Ela é minha menina
Primeiro ela olhou e não viu nada. Mentira, gostou do papo. Ou da voz, não lembrava bem. Depois ela olhou de novo, e viu um sorriso aberto. Gostou disso. E da gargalhada que vinha sempre depois. Na terceira vez, ela olhou mais atenta, viu gostos em comum, mais do que ela tinha pensado. E foi gostando disso também. Aí, quando se deu conta, já tinha pele, cheiro, toque, essas coisas inexplicáveis. E ela começou a ver tanta coisa, e cada dia descobria uma nova, assim, sem pressa, como as descobertas boas devem ser. Olhou de novo, e de repente o olhar era igual, aquele olhar íntimo de duas pessoas que se descobrem e se perguntam, como a gente demorou tanto tempo pra se achar?
E quando ela se deu conta, já era. Dele. E ele dela.
E quando ela se deu conta, já era. Dele. E ele dela.
sábado, 22 de outubro de 2011
Pro dia nascer feliz
Ela tinha esquecido. Do cheiro reconhecido sempre no mesmo pescoço. Daquele olhar cúmplice fora de hora. De como era bom ter seu lado da cama. Tinha esquecido da delícia de ser bem cuidada - ela e aquela velha mania de querer só cuidar. Ela tinha esquecido. De como podia sorrir por dentro só de ouvir uma voz. De como era bom escutar uma música sendo cantada ao pé do ouvido. Ela tinha esquecido de como é gostoso sentir saudade antes mesmo de se despedir. Tinha esquecido, aliás, de como é difícil sair de um abraço de despedida. Tinha esquecido de como é a boa aquela cosquinha que não tem nome, aquele frio na barriga quando o telefone toca. Ela tinha esquecido de como é sonhar com alguém e acordar com ele na cama. Ela tinha esquecido da delícia de se beijar sempre a mesma boca, cada dia de um jeito diferente. Ela tinha esquecido de como é bom ouvir aquilo que se está pensando em dizer. Ela tinha esquecido tudo isso.
Aí ele apareceu. E ela lembrou.
Aí ele apareceu. E ela lembrou.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Ella es bonita
Tá bom, eu sei que ela te faz bem. Sei que você gosta do sorriso dela mais do que gosta do meu, sei que ela é mais maleável, menos histérica. Sei que ela é inteligente, eu sei. O vestido cai melhor nela, ela nunca deve ter tido crise de pânico, e aposto que cozinha bem. Tá bom, eu sei que ela deixa você com essa cara de babão, com essa sensação de paz de espírito que eu nunca te dei. Sei que você admira a liberdade dela, sei que ela é independente e morava sozinha há anos, não tinha problemas no banco, nem dívidas no cartão. Tá bom, eu sei ela não te liga de madrugada aos prantos, sem motivo algum, sei que ela é contida, eu sei. Sei que ela exala segurança de longe, que ela é educada com seus amigos, que sua mãe adora ela. Sei que ela não chora.
Mas eu achava que a gente daria certo. Que era uma questão de tempo. Que a gente ia se entender, que você ia desistir do seu casamento e ficar comigo. Eu achava, como a maioria das outras acha, daquele jeito bobo de pensar que o amor cura as pessoas, sabe? Eu achava que como você não tinha filhos, que como você era tão ciumento, que como a gente se dava tão bem na cama e fora dela... Eu achava. Provavelmente você também achava que a gente daria certo, que eu iria mudar, que eu não iria mentir mais pra você, que eu iria deixar de fumar, de beber tanto e fazer escândalo na rua. Você achava que eu tinha jeito, mas daquele seu jeito de achar ingênuo de que toda mulher um dia vai virar mãe e dona-de-casa.
E eu sei que ela vai ser uma ótima mãe e dona-de-casa. Sei que ela vai largar o emprego perfeito pra mudar de cidade quando você for promovido. Sei que ela vai saber se comportar na reunião da escola. Eu sei. Sei que ela não fuma escondido quando fica nervosa que o telefone não toca. Sei que ela se cuida, faz cabelo, unha, pilates. Eu sei que ela finge que não sabe da gente. Sei que ela aceita te dividir porque te ama mais que tudo, eu sei. Sei que ela nunca te largaria, nem por mim, nem por ela. Sei que ela aceita bem suas mentiras, sei que ela acredita em você, eu sei.
No fundo eu sei. Ela é mais fraca que eu. Ela te merece.
Mas eu achava que a gente daria certo. Que era uma questão de tempo. Que a gente ia se entender, que você ia desistir do seu casamento e ficar comigo. Eu achava, como a maioria das outras acha, daquele jeito bobo de pensar que o amor cura as pessoas, sabe? Eu achava que como você não tinha filhos, que como você era tão ciumento, que como a gente se dava tão bem na cama e fora dela... Eu achava. Provavelmente você também achava que a gente daria certo, que eu iria mudar, que eu não iria mentir mais pra você, que eu iria deixar de fumar, de beber tanto e fazer escândalo na rua. Você achava que eu tinha jeito, mas daquele seu jeito de achar ingênuo de que toda mulher um dia vai virar mãe e dona-de-casa.
E eu sei que ela vai ser uma ótima mãe e dona-de-casa. Sei que ela vai largar o emprego perfeito pra mudar de cidade quando você for promovido. Sei que ela vai saber se comportar na reunião da escola. Eu sei. Sei que ela não fuma escondido quando fica nervosa que o telefone não toca. Sei que ela se cuida, faz cabelo, unha, pilates. Eu sei que ela finge que não sabe da gente. Sei que ela aceita te dividir porque te ama mais que tudo, eu sei. Sei que ela nunca te largaria, nem por mim, nem por ela. Sei que ela aceita bem suas mentiras, sei que ela acredita em você, eu sei.
No fundo eu sei. Ela é mais fraca que eu. Ela te merece.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Só entende quem namora
E se eu quiser ficar mais um pouco, se eu quiser te ligar fora de hora, se eu quiser te chamar pro cinema domingo à noite? E se eu quiser te apresentar pros meus amigos, te convidar pra almoçar na casa do meu pai, se eu quiser fazer ceninha de ciúme, se eu quiser comprar uma camiseta pra você? O que eu faço se eu quiser te chamar por um apelido inventado, se eu quiser ver filme no sofá com você, pipoca e pijama, se eu quiser te ligar pra saber se você chegou bem em casa? E se eu quiser te chamar pra dormir lá em casa e ficar o dia seguinte todo?
E se eu quiser reclamar do seu quarto bagunçado, se eu quiser achar sua amiga oferecida, se eu quiser perguntar de quem era aquela escova de cabelo no chuveiro? E se eu quiser sair sem te avisar e ficar com remorso depois, se eu quiser que você pegue um trânsito pra me buscar no aeroporto, e se eu quiser que você deixe de ir jogar bola pra ir no shopping? E se eu quiser brigar por causa de TPM, te ligar porque fui assaltada no ônibus, se eu quiser te chamar de mentiroso só porque você não quis me ver?
E se eu quiser ser eu mesma, todo dia, o tempo todo, pode?
Pode.
E se eu quiser reclamar do seu quarto bagunçado, se eu quiser achar sua amiga oferecida, se eu quiser perguntar de quem era aquela escova de cabelo no chuveiro? E se eu quiser sair sem te avisar e ficar com remorso depois, se eu quiser que você pegue um trânsito pra me buscar no aeroporto, e se eu quiser que você deixe de ir jogar bola pra ir no shopping? E se eu quiser brigar por causa de TPM, te ligar porque fui assaltada no ônibus, se eu quiser te chamar de mentiroso só porque você não quis me ver?
E se eu quiser ser eu mesma, todo dia, o tempo todo, pode?
Pode.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Roubo as estrelas lá do céu
Oi, hoje eu lembrei de você. Não que eu não pense todos os dias, mas hoje foi diferente: imaginei como seria se você ainda tivesse aqui. Ouvi aquela música que você cantava só pra me ver dançar - e eu adorava me mostrar pra você, aí deu uma vontade enorme de dançar mais uma vez pra você me olhar. Certamente você me achava mais desajeitada do que qualquer coisa, mas eu escuto até hoje essa música lembrando de você rindo da minha falta de ritmo. Lembro que você fazia de tudo pra me deixar menos tímida, e olha, acho que segui isso ao pé da letra. Ninguém mais diria que eu sou tímida, na verdade eu até falo pelos cotovelos, você nem iria me reconhecer mais. Claro que não sou tão popular quanto você, nem poderia, acabei ficando séria mais cedo. Não tenho aquele teu sorriso aberto e nem sou tão simpática quanto você queria, mas olha, a timidez foi embora. Também fiquei meio adulta antes da hora, uma coisa besta de não aceitar ajuda de ninguém, de não chorar na frente dos outros. Acho que tem um pouco teu aí, você foi embora cedo e eu passei a fingir que sou forte. Besteira minha, eu sei. Sei que você não aprovaria também meu sedentarismo, provavelmente eu continuaria bem mais saudável se você não tivesse indo embora, talvez até seria uma atleta profissional, como você sempre quis, já pensou? Mas não, virei sedentária, gosto mais da noite do que do dia, adoro um vinho em casa e fora de casa, virei fumante. Mas não se preocupe, tá tudo mais ou menos certo com a minha saúde, tirando umas recaídas esporádicas da minha garganta, você sabe que ela sempre foi meio problemática. Minha vida amorosa também vai bem, daquele jeito que era mais ou menos, não mudou muito. Continuo me apaixonando demais e pelas pessoas erradas, mas cada vez com menos frequência, deve ser coisa da idade. E continuo superando todos eles, todas as paixões exageradas e pelas pessoas erradas acabam no fim das contas. Talvez você até se divertisse com algumas histórias, sabe, você nunca teve muito ciúme, sempre defendeu esse amor livre e sincero que as pessoas tanto criticam e julgam; você não, nunca foi de julgar ninguém, e eu aprendi também muito isso com você. Aprendi a ver as pessoas com olhos bonitos, sabe, sem preconceitos. Acho que você ia gostar de me ver hoje, de ver como eu cresci sem você - ou apesar disso. Sim, você ia adorar saber que eu sei cozinhar, me viro muito bem com pouca coisa na geladeira, tá? Acho que você ia se orgulhar no fim das contas. Aprendi um monte de coisa, passei pra mesma faculdade que você, sei falar espanhol, me virei um ano sozinha em outro país. Como você queria, sem muita gente cuidando de mim, sabe?
Mãe, hoje eu pensei em como seria se você ainda tivesse aqui, e não chorei, juro. Até ri em alguns momentos. Talvez por causa daquela mania besta que eu te falei antes, de não me permitir chorar. Ou pra que você não achasse que tá tudo errado sem você. Você deveria estar aqui, eu sei, mas tá tudo bem mesmo assim. Não se preocupe.
Mãe, hoje eu pensei em como seria se você ainda tivesse aqui, e não chorei, juro. Até ri em alguns momentos. Talvez por causa daquela mania besta que eu te falei antes, de não me permitir chorar. Ou pra que você não achasse que tá tudo errado sem você. Você deveria estar aqui, eu sei, mas tá tudo bem mesmo assim. Não se preocupe.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Te adorando pelo avesso
Sei lá porque, mas me deu raiva de você, raiva de tanto afeto, de tanta expectativa, de tanta espera inútil. Deu raiva de ter anotado seu telefone, de ter te ligado na semana seguinte, de ter te comprado flores no nosso aniversário de um mês, de ter chorado na primeira vez que você me disse eu te amo. Sei lá, me deu raiva de você ter sido tão importante na minha vida, de eu ter deixado você entrar assim, como se não doesse esse negócio de se apaixonar, como se fosse só coisa boa, só café da manhã na cama e massagem no ombro. Sei lá porque, mas me deu raiva de ter te traído um ano depois, de ter me envolvido com tanta gente sem importância, de ter deixado você me perdoar por tantas vezes. Me deu raiva desse teu sorriso indulgente, dessa tua mania de me amar mesmo sem eu merecer, dessa tua esperança ingênua de fazer a gente dar certo, mesmo sabendo que não. Eu sei lá porque, mas acho que tenho raiva mesmo de você, desse teu querer desesperado que me entende sempre que eu chego em casa e invento uma desculpa qualquer pelo porre, dessa tua compreensão, desse teu olhar infeliz ao meu lado. Sei lá porque, mas me deu raiva da nossa casa que cheira a cigarro e a cerveja, mas não aquele cheiro de festa, só de ressaca. Sei lá, me deu raiva da nossas tentativas frustadas de tentar mais uma vez, e outra e outra, dessa insistência insana e louca, dessa dependência maluca, de um amor que não tem mais cheiro, nem gosto, nem nada.
Sei lá porque, mas me deu uma raiva enorme de você. Mentira, eu sei porque. É que eu te olho no olho e só vejo a mim mesmo.
Sei lá porque, mas me deu uma raiva enorme de você. Mentira, eu sei porque. É que eu te olho no olho e só vejo a mim mesmo.
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