Que merda esse coração disparado, essa angústia de não saber o que é isso que vem e te deixa assim eufórico, no meio do escritório, arrasada no meio do almoço, que te faz chorar na depilação e não é de dor, ou é. Que merda esse querer idiota, que te faz adolescente, que te deixa com ataque de pânico, sem respirar, quando ele resolve fazer perguntas idiotas que ele sabe a resposta e você sabe que ele sabe. Que merda essa desconcentração na hora errada, que te faz levar esporro do chefe, porque o trabalho tá atrasado, porque a vida tá toda atrasada, porque não era mais idade pra sentir essas coisas, que isso é coisa de criança que nunca amou e você já amou tanto que não deveria mais se sobressaltar. Que merda essa vontade que não passa nem depois de tudo dar errado, um desencaixe físico e emocional óbvio, uma falta do que saber fazer, uma falta do que saber dizer, que te faz falar coisas desconexas e sem sentido, frases que não existem, palavras pela metade. Que merda esse suor nesse frio de 10 graus, esse descompasso entre o inverno lá fora e o verão aqui dentro, entre a racionalidade que te manda ir embora e o coração que insiste num ficar desesperado, mesmo sem motivo algum.
Essa merda tem nome, me dizem, é paixão. E dura só seis meses.
Mentira, eu digo, que eu morro antes.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Todo dia ele olhava. Ela com o livro no mesmo café, tomando o mesmo espresso, esperando a mesma garçonete, que ela conhecia já de nome. O mesmo livro sempre, ele reparou na capa, não era um livro grosso, porque ela demorava tanto pra terminar? Todo dia ele esperava a hora do café, todo dia ele se aproximava, e todo dia desistia de perguntar seu nome, pra que nomes, pra que perguntas? Ele tentava mudar o caminho um dia que fosse, mas sabia que ela estaria lá e saber da presença dela sem a presença dele doía, como se ela fosse esbarrar com o amor da vida dela se ele não estivesse ali de plantão, como se estando ali ele pudesse atrasar o destino, brincar com o acaso, impedir o tal esbarrão inevitável com o príncipe encantado dela, que, claro não era ele. Por isso ele continuava indo todos os dias àquele mesmo café, onde ela tomava o mesmo espresso, esperava a mesma garçonete, que ela (e agora ele) conhecia já de nome. Esperava ela ler sempre o mesmo livro, fino, mas o mesmo, e desistia de perguntar o nome dela. Ela nunca olhava pros lados, no máximo procurava alguma coisa no celular, respondia uma mensagem ou um email, e voltava praquele livro fino e infinito que não acabava nunca. Ele dava alguns passos, imaginava uma abordagem qualquer, casual de preferência, algo que a fizesse rir e perceber a presença dele, ali, todos os dias, no mesmo café que ela. Mas voltava, desistia, achava perda de tempo, todos os dias uma desculpa qualquer, ela não vai se interessar, quem sabe não é tão solitária quanto parece ser, quem sabe é casada, tem filhos, cachorros e um casa grande, com um monte de amigos. Quem sabe ela não precisa dele tanto assim quanto ele pensava, quem sabe ela seja muito mais segura do que parece por trás daqueles óculos e daquele livro fino, infinito.
Um dia, o livro chegou ao fim. Ele viu uma lágrima. Achou que era o pior momento de falar o que tanto tinha planejado falar. E foi embora. E ela nunca mais voltou ao café onde tomava o mesmo espresso todos os dias, esperando a mesma garçonete todos os dias, que ela conhecia já de nome.
Um dia, o livro chegou ao fim. Ele viu uma lágrima. Achou que era o pior momento de falar o que tanto tinha planejado falar. E foi embora. E ela nunca mais voltou ao café onde tomava o mesmo espresso todos os dias, esperando a mesma garçonete todos os dias, que ela conhecia já de nome.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
terça-feira, 5 de julho de 2011
Catarse
Comecei a ler um livro que me lembrou de você, daquela sua mania chata de não ler autores novos, porque não tinha lido tudo de Tolstói ou Dostoiévski. Aí me lembrei daquele livro que você mandou trazer de não sei onde, com a dedicatória que achei outro dia e me fez chorar, embora fosse feliz e falasse de uma coisa que acho que não acredito mais, de fins e recomeços e da roleta russa que é voltar a acreditar no amor. Desculpa roubar essa sua frase, mas é que eu acho lindo e prolixo tudo que você escreve, até nas informalidades você é formal, apesar de todo aquele teu fogo apaixonante, de toda a tua pressa, sempre tem um "por favor" antes de se dirigir a alguém, mesmo que seja o frentista do posto de gasolina; por favor, obrigado e desculpas, você nunca teve medo de pedir desculpas, nem quando achava que estava certo, e quase sempre você achava, mas sempre se desculpava talvez por educação ou pra alcalmar a minha insegurança. A verdade é que eu só não te desculpei daquela vez, eu juro mesmo que eu tentei, mas eu sabia que nunca mais poderia te amar do jeito que eu sonhava, daquele jeito idealizado de melhor amigo, daquele jeito cúmplice de se olhar e se achar no outro. Depois daquela vez eu não podia mais te amar assim, então não havia o que desculpar, porque o você que eu queria tinha morrido de vez, só sobrou aquele amor que está aí até hoje, que se manifesta nas pessoas que eu amo pra reencontrar você, aquele amor que me arranca lágrimas no meio do almoço, lendo um livro que não é de Dostoiévski, mas que me faz lembrar de você.
Morreu, o nosso amor morreu
Enquanto todo mundo chamava ele de covarde, ela defendia: é a vida, depois passa, ele está mesmo numa fase esquisita. Ela olhava pra dentro e sabia que se enganava, mas insistia na ladainha de que tudo ia passar, que ele voltaria atrás, que ele se daria conta da mulher maravilhosa que iria perder, que tudo seria resolvido logo logo. Ele olhava cada vez menos pra ela, mesmo quando olhava, só sabia fazer aquela cara de não te amo mais que ela tanto odiava, aquele pedido de desculpas estampado na testa, eu desisto, eu desisto, não quero mais a gente. Ela olhava pra fora e era tudo muito claro, sabia que em algum momento ele deixaria de ser tão pouco homem, que um dia ele assumiria tudo, que não queria mais assumir nada, que se assustava com tantas coisas em comum, que se pelava de medo daquela certeza dela, que não sabia nada de futuro, nem de certezas, que era mesmo hora de ir. Ela sabia de tudo e esperava que estivesse errada, mesmo sabendo que nunca errava nessas horas, que mulher nenhuma erra nessas horas, o que a maioria faz é fingir que nem ela fingia, fingir que era compreensiva, fingir-se bem resolvida, indiferente até. Mas ele, ah, ele não fingia, quase esfregava a outra ou outras na cara dela, e era cada vez mais óbvio aquela escolha covarde, sim, covarde, de querer sempre a pessoa errada, com medo da felicidade óbvia. E um dia ela soube que era tarde, que ele era mesmo covarde demais, todo homem tem alguma coisa de covarde demais, e que seria ela mais uma vez quem teria que decidir pelos dois, ela que teria que pedir a morte deles, quase um suicídio, porque ele não teria a coragem necessária para apertar o gatilho.
E foi lá e matou. Ficou um restinho de sangue, mas ela saberia como limpar, novamente.
E foi lá e matou. Ficou um restinho de sangue, mas ela saberia como limpar, novamente.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Carpe Diem
"Não importa que sejam dez segundos
Indifere que durem só dois dias
Tanto faz se foi por uma semana
Que não seja, que não continue
Que seja eterno enquanto for"
(2008)
Indifere que durem só dois dias
Tanto faz se foi por uma semana
Que não seja, que não continue
Que seja eterno enquanto for"
(2008)
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Não tenho nada pra dizer
Começou e apagou aquelas linhas tantas vezes que parecia até que não sabia o que dizer. Logo ela que inventava tantos diálogos, que escrevia tantas linhas, sérias ou de conversa fiada, logo ela que adorava a dissertação, a confrontação, a discussão. Logo ela que tinha tanto a dizer, não sabia o que dizer. Na verdade não é que não soubesse, ela sabia exatamente o que dizer a ele. E sabia exatamente o que ele deveria dizer a ela.
Mas, e se ele não dissesse? E se todas aquelas linhas não-ditas fossem mesmo não-ditas, se todas aquelas entrelinhas nunca tivessem passado de apenas isso, de entrelinhas, e se tudo não passasse de um devaneio, inventado, criado, repetido e repetido e repetido, até se tornar uma verdade mentirosa?
Ela não queria, ou não aguentaria, ou não suportaria saber a resposta errada. E preferia fingir que não tinha nada a dizer. E escrevia e apagava as linhas, e inventava tantos diálogos, tantas palavras, dissertava e confrontava e discutia. Postergando uma resposta que não saberia mais esperar, mas que continuava intocada. Adiando um não.
Mas, e se ele não dissesse? E se todas aquelas linhas não-ditas fossem mesmo não-ditas, se todas aquelas entrelinhas nunca tivessem passado de apenas isso, de entrelinhas, e se tudo não passasse de um devaneio, inventado, criado, repetido e repetido e repetido, até se tornar uma verdade mentirosa?
Ela não queria, ou não aguentaria, ou não suportaria saber a resposta errada. E preferia fingir que não tinha nada a dizer. E escrevia e apagava as linhas, e inventava tantos diálogos, tantas palavras, dissertava e confrontava e discutia. Postergando uma resposta que não saberia mais esperar, mas que continuava intocada. Adiando um não.
sábado, 7 de maio de 2011
É que eu preciso dizer que eu te amo
Porque eu sei que você nunca vai ler, posso escrever que ainda te amo escondido e sem você saber e que fantasiei tantas vezes que você também me ama escondido e sem eu saber. Que cada vez que o telefone toca eu penso que podia, pelo menos podia, ser você. Ou porque eu sei que você nunca vai ler, eu escrevo sobre o dia que eu te esperei ingenuamente, aquele dia que você desmarcou em cima da hora por causa de outra, pelas tantas vezes que você preferiu insistir que ela era mais interessante que eu. Posso escrever até que eu torço secretamente pra que ela te esqueça, pra que as outras todas te esqueçam, e que assim, quem sabe, você perceba que eu te amo escondida e sem você saber. Porque eu sei que você nunca vai ler, posso ser cruel e querer que nenhuma delas te responda nunca mais nenhuma mensagem, que todas elas percebam seu medo gigantesco de se comprometer, que todas descubram que você é um canalha perdido, do seu medo do mundo de gente grande e da sua falta de ambição. Que você não sabe dizer eu te amo, que você detesta aliança e que tem pavor de casamento e qualquer palavra que remeta a ele. Porque eu sei que você nunca vai ler, posso então contar que eu não aguento mais ouvir todas as suas histórias malsucedidas, nem lamentar todas as suas frustrações, nem satisfazer todas os seus egos e machismos, nem fingir que acho graça de todos os seus deboches. Só porque eu sei que você nunca vai ler, posso escrever que duvido que alguém te queira tanto apesar dos seus defeitos, que tenho certeza que nenhuma delas suportaria, até de bom grado, todos seus erros. Porque eu sei que você nunca vai ler, eu escrevo como se você fosse ler, disfarçando e aumentando cada linha pra você não entender que, na verdade, você é você, me escondendo até dentro de uma declaração pública, me enganando até dentro do meu próprio verso.
Porque, no fundo, eu sei que você vai ler.
Porque, no fundo, eu sei que você vai ler.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Chorava todo mundo, mas agora ninguém chora mais
Com o primeiro aprendeu a chorar escondida no banheiro; com o segundo, que chorar até virar água pode emagrecer. Com o terceiro, aprendeu que dói mesmo quando a lágrima seca; com o quarto conheceu o choro da culpa de não amar tanto quanto podia. Com o quinto, soube o que era o choro covarde. Com o sexto, aprendeu a engolir lágrima em seco. Com o último, chorou temporal, e aprendeu a não chorar nunca mais.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Não sabendo que era impossível
Eu podia ter falado eu te amo antes dele ir. Podia ter pedido pra ele ficar. Podia ter dito que queria mais do que ele me dava. Podia ter ligado de volta quando vi a ligação perdida. Podia ter convidado ele pra subir e tomar uma cerveja. Podia ter deixado ele me levar em casa de manhã. Podia ter ido conhecer a casa dele. Podia ter falado a verdade quando ele me perguntou. Podia ter sido mais direta naquele dia na festa. Podia ter pedido pra ele não atender o telefone. Podia ter dançado só mais aquela música. Podia ter ficado pra dormir. Podia ter contado que sentia saudade. Podia ter comprado aquele vôo em cima da hora. Podia ter atendido a ligação no dia seguinte. Podia ter escutado mais uma vez a nossa música. Podia ter perdoado aquela vez. Podia ter ficado até a festa acabar. Podia ter chorado em vez de ter esquecido.
E isso tudo me passou pela cabeça vendo uma cena de 5 segundos de um filme. Mas ela foi lá e fez.
E isso tudo me passou pela cabeça vendo uma cena de 5 segundos de um filme. Mas ela foi lá e fez.
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