quarta-feira, 6 de julho de 2011
terça-feira, 5 de julho de 2011
Catarse
Comecei a ler um livro que me lembrou de você, daquela sua mania chata de não ler autores novos, porque não tinha lido tudo de Tolstói ou Dostoiévski. Aí me lembrei daquele livro que você mandou trazer de não sei onde, com a dedicatória que achei outro dia e me fez chorar, embora fosse feliz e falasse de uma coisa que acho que não acredito mais, de fins e recomeços e da roleta russa que é voltar a acreditar no amor. Desculpa roubar essa sua frase, mas é que eu acho lindo e prolixo tudo que você escreve, até nas informalidades você é formal, apesar de todo aquele teu fogo apaixonante, de toda a tua pressa, sempre tem um "por favor" antes de se dirigir a alguém, mesmo que seja o frentista do posto de gasolina; por favor, obrigado e desculpas, você nunca teve medo de pedir desculpas, nem quando achava que estava certo, e quase sempre você achava, mas sempre se desculpava talvez por educação ou pra alcalmar a minha insegurança. A verdade é que eu só não te desculpei daquela vez, eu juro mesmo que eu tentei, mas eu sabia que nunca mais poderia te amar do jeito que eu sonhava, daquele jeito idealizado de melhor amigo, daquele jeito cúmplice de se olhar e se achar no outro. Depois daquela vez eu não podia mais te amar assim, então não havia o que desculpar, porque o você que eu queria tinha morrido de vez, só sobrou aquele amor que está aí até hoje, que se manifesta nas pessoas que eu amo pra reencontrar você, aquele amor que me arranca lágrimas no meio do almoço, lendo um livro que não é de Dostoiévski, mas que me faz lembrar de você.
Morreu, o nosso amor morreu
Enquanto todo mundo chamava ele de covarde, ela defendia: é a vida, depois passa, ele está mesmo numa fase esquisita. Ela olhava pra dentro e sabia que se enganava, mas insistia na ladainha de que tudo ia passar, que ele voltaria atrás, que ele se daria conta da mulher maravilhosa que iria perder, que tudo seria resolvido logo logo. Ele olhava cada vez menos pra ela, mesmo quando olhava, só sabia fazer aquela cara de não te amo mais que ela tanto odiava, aquele pedido de desculpas estampado na testa, eu desisto, eu desisto, não quero mais a gente. Ela olhava pra fora e era tudo muito claro, sabia que em algum momento ele deixaria de ser tão pouco homem, que um dia ele assumiria tudo, que não queria mais assumir nada, que se assustava com tantas coisas em comum, que se pelava de medo daquela certeza dela, que não sabia nada de futuro, nem de certezas, que era mesmo hora de ir. Ela sabia de tudo e esperava que estivesse errada, mesmo sabendo que nunca errava nessas horas, que mulher nenhuma erra nessas horas, o que a maioria faz é fingir que nem ela fingia, fingir que era compreensiva, fingir-se bem resolvida, indiferente até. Mas ele, ah, ele não fingia, quase esfregava a outra ou outras na cara dela, e era cada vez mais óbvio aquela escolha covarde, sim, covarde, de querer sempre a pessoa errada, com medo da felicidade óbvia. E um dia ela soube que era tarde, que ele era mesmo covarde demais, todo homem tem alguma coisa de covarde demais, e que seria ela mais uma vez quem teria que decidir pelos dois, ela que teria que pedir a morte deles, quase um suicídio, porque ele não teria a coragem necessária para apertar o gatilho.
E foi lá e matou. Ficou um restinho de sangue, mas ela saberia como limpar, novamente.
E foi lá e matou. Ficou um restinho de sangue, mas ela saberia como limpar, novamente.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Carpe Diem
"Não importa que sejam dez segundos
Indifere que durem só dois dias
Tanto faz se foi por uma semana
Que não seja, que não continue
Que seja eterno enquanto for"
(2008)
Indifere que durem só dois dias
Tanto faz se foi por uma semana
Que não seja, que não continue
Que seja eterno enquanto for"
(2008)
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Não tenho nada pra dizer
Começou e apagou aquelas linhas tantas vezes que parecia até que não sabia o que dizer. Logo ela que inventava tantos diálogos, que escrevia tantas linhas, sérias ou de conversa fiada, logo ela que adorava a dissertação, a confrontação, a discussão. Logo ela que tinha tanto a dizer, não sabia o que dizer. Na verdade não é que não soubesse, ela sabia exatamente o que dizer a ele. E sabia exatamente o que ele deveria dizer a ela.
Mas, e se ele não dissesse? E se todas aquelas linhas não-ditas fossem mesmo não-ditas, se todas aquelas entrelinhas nunca tivessem passado de apenas isso, de entrelinhas, e se tudo não passasse de um devaneio, inventado, criado, repetido e repetido e repetido, até se tornar uma verdade mentirosa?
Ela não queria, ou não aguentaria, ou não suportaria saber a resposta errada. E preferia fingir que não tinha nada a dizer. E escrevia e apagava as linhas, e inventava tantos diálogos, tantas palavras, dissertava e confrontava e discutia. Postergando uma resposta que não saberia mais esperar, mas que continuava intocada. Adiando um não.
Mas, e se ele não dissesse? E se todas aquelas linhas não-ditas fossem mesmo não-ditas, se todas aquelas entrelinhas nunca tivessem passado de apenas isso, de entrelinhas, e se tudo não passasse de um devaneio, inventado, criado, repetido e repetido e repetido, até se tornar uma verdade mentirosa?
Ela não queria, ou não aguentaria, ou não suportaria saber a resposta errada. E preferia fingir que não tinha nada a dizer. E escrevia e apagava as linhas, e inventava tantos diálogos, tantas palavras, dissertava e confrontava e discutia. Postergando uma resposta que não saberia mais esperar, mas que continuava intocada. Adiando um não.
sábado, 7 de maio de 2011
É que eu preciso dizer que eu te amo
Porque eu sei que você nunca vai ler, posso escrever que ainda te amo escondido e sem você saber e que fantasiei tantas vezes que você também me ama escondido e sem eu saber. Que cada vez que o telefone toca eu penso que podia, pelo menos podia, ser você. Ou porque eu sei que você nunca vai ler, eu escrevo sobre o dia que eu te esperei ingenuamente, aquele dia que você desmarcou em cima da hora por causa de outra, pelas tantas vezes que você preferiu insistir que ela era mais interessante que eu. Posso escrever até que eu torço secretamente pra que ela te esqueça, pra que as outras todas te esqueçam, e que assim, quem sabe, você perceba que eu te amo escondida e sem você saber. Porque eu sei que você nunca vai ler, posso ser cruel e querer que nenhuma delas te responda nunca mais nenhuma mensagem, que todas elas percebam seu medo gigantesco de se comprometer, que todas descubram que você é um canalha perdido, do seu medo do mundo de gente grande e da sua falta de ambição. Que você não sabe dizer eu te amo, que você detesta aliança e que tem pavor de casamento e qualquer palavra que remeta a ele. Porque eu sei que você nunca vai ler, posso então contar que eu não aguento mais ouvir todas as suas histórias malsucedidas, nem lamentar todas as suas frustrações, nem satisfazer todas os seus egos e machismos, nem fingir que acho graça de todos os seus deboches. Só porque eu sei que você nunca vai ler, posso escrever que duvido que alguém te queira tanto apesar dos seus defeitos, que tenho certeza que nenhuma delas suportaria, até de bom grado, todos seus erros. Porque eu sei que você nunca vai ler, eu escrevo como se você fosse ler, disfarçando e aumentando cada linha pra você não entender que, na verdade, você é você, me escondendo até dentro de uma declaração pública, me enganando até dentro do meu próprio verso.
Porque, no fundo, eu sei que você vai ler.
Porque, no fundo, eu sei que você vai ler.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Chorava todo mundo, mas agora ninguém chora mais
Com o primeiro aprendeu a chorar escondida no banheiro; com o segundo, que chorar até virar água pode emagrecer. Com o terceiro, aprendeu que dói mesmo quando a lágrima seca; com o quarto conheceu o choro da culpa de não amar tanto quanto podia. Com o quinto, soube o que era o choro covarde. Com o sexto, aprendeu a engolir lágrima em seco. Com o último, chorou temporal, e aprendeu a não chorar nunca mais.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Não sabendo que era impossível
Eu podia ter falado eu te amo antes dele ir. Podia ter pedido pra ele ficar. Podia ter dito que queria mais do que ele me dava. Podia ter ligado de volta quando vi a ligação perdida. Podia ter convidado ele pra subir e tomar uma cerveja. Podia ter deixado ele me levar em casa de manhã. Podia ter ido conhecer a casa dele. Podia ter falado a verdade quando ele me perguntou. Podia ter sido mais direta naquele dia na festa. Podia ter pedido pra ele não atender o telefone. Podia ter dançado só mais aquela música. Podia ter ficado pra dormir. Podia ter contado que sentia saudade. Podia ter comprado aquele vôo em cima da hora. Podia ter atendido a ligação no dia seguinte. Podia ter escutado mais uma vez a nossa música. Podia ter perdoado aquela vez. Podia ter ficado até a festa acabar. Podia ter chorado em vez de ter esquecido.
E isso tudo me passou pela cabeça vendo uma cena de 5 segundos de um filme. Mas ela foi lá e fez.
E isso tudo me passou pela cabeça vendo uma cena de 5 segundos de um filme. Mas ela foi lá e fez.
terça-feira, 15 de março de 2011
Eu fui às touradas em Madri
Ela nunca acreditou em inferno astral, quarta-feira de cinzas, essas coisas inventadas pra justificar mau humor até que viveu uma quarta-feira de cinzas de dois meses. Justo. O ano longe tinha sido um carnaval de 365 dias. E ela sabia que outro daqueles seria difícil de acontecer. Quando chegou, na neve e no frio, ela não imaginava o que lhe esperava. Não teve tempo de sentir medo. Em outra língua dá pra sentir medo? Ela nunca chegou a descobrir. Sabendo que sua folia tinha prazo de validade e que sua máscara de colombina não seria tirada pelo menos pelos próximos 12 meses, ela aproveitou cada segundo, cada dança, cada pierrô, cada gole. Que não a levassem a mal, por favor. Era carnaval.
E assim foi até a última noite, quando Madri se esquentou depois da chuva pra lhe dizer adeus. E ela não se deu conta que além da casa, dos amigos, dos amores, deixava ali ela mesma. Uma foliona corajosa que se pintou sem medo (em outra língua dá pra sentir medo?), se fantasiou do que queria ser e se perdeu na sua própria fantasia. Que não cansou de brincar carnaval por 365 dias. Mas não esperava a ressaca da quarta-feira interminável.
De vez em quando ela tenta encontrar a fantasia perdida no armário e se veste de espanhola, mas é tudo da boca pra fora. Ela foi às touradas em Madri e não voltou mais aqui.
E assim foi até a última noite, quando Madri se esquentou depois da chuva pra lhe dizer adeus. E ela não se deu conta que além da casa, dos amigos, dos amores, deixava ali ela mesma. Uma foliona corajosa que se pintou sem medo (em outra língua dá pra sentir medo?), se fantasiou do que queria ser e se perdeu na sua própria fantasia. Que não cansou de brincar carnaval por 365 dias. Mas não esperava a ressaca da quarta-feira interminável.
De vez em quando ela tenta encontrar a fantasia perdida no armário e se veste de espanhola, mas é tudo da boca pra fora. Ela foi às touradas em Madri e não voltou mais aqui.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
É como se o amor doesse em paz
Quando chegou, no inverno e na neve, ela só sentia saudade. Da praia, da samba, do suor, do flanelinha, do camelô, do trocador. Sentia saudade do pior, também. Mas sentia, acima de tudo, saudade da gente. Até que conheceu nova gente, que aos poucos, ou 'poco a poco', foi tratando de amenizar a dor. E aí ficou mesmo só a saudade. Mas "sem dor?", perguntavam. Ela explicava que não era nada disso que eles conheciam. Era uma coisa nossa, que mais ninguém sabia sentir. "Era como se o amor doesse em paz", se apoderou das palavras do poeta pra tentar explicar. "E pode o amor doer em paz?", questionaram outra vez. Ela não sabia responder.
E depois, quando voltou, também no inverno, foi tanta chuva que virou água de dentro pra fora, e ela sentiu outra vez aquela coisa doída. Saudade do parque, do rock, do ventinho frio, do chinês, da fila da boate de madrugada. Sentia saudade do pior, também. Mas, acima de tudo, sentia saudade da nova gente. E perguntaram, do outro lado do oceano, "saudade, mas já?". Parece que a gente nasceu pra sentir saudade. Pode ser que a exclusividade da palavra tenha mesmo um motivo.
E depois, quando voltou, também no inverno, foi tanta chuva que virou água de dentro pra fora, e ela sentiu outra vez aquela coisa doída. Saudade do parque, do rock, do ventinho frio, do chinês, da fila da boate de madrugada. Sentia saudade do pior, também. Mas, acima de tudo, sentia saudade da nova gente. E perguntaram, do outro lado do oceano, "saudade, mas já?". Parece que a gente nasceu pra sentir saudade. Pode ser que a exclusividade da palavra tenha mesmo um motivo.
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