quinta-feira, 9 de junho de 2011

Carpe Diem

"Não importa que sejam dez segundos
Indifere que durem só dois dias
Tanto faz se foi por uma semana
Que não seja, que não continue
Que seja eterno enquanto for"

(2008)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Não tenho nada pra dizer

Começou e apagou aquelas linhas tantas vezes que parecia até que não sabia o que dizer. Logo ela que inventava tantos diálogos, que escrevia tantas linhas, sérias ou de conversa fiada, logo ela que adorava a dissertação, a confrontação, a discussão. Logo ela que tinha tanto a dizer, não sabia o que dizer. Na verdade não é que não soubesse, ela sabia exatamente o que dizer a ele. E sabia exatamente o que ele deveria dizer a ela.

Mas, e se ele não dissesse? E se todas aquelas linhas não-ditas fossem mesmo não-ditas, se todas aquelas entrelinhas nunca tivessem passado de apenas isso, de entrelinhas, e se tudo não passasse de um devaneio, inventado, criado, repetido e repetido e repetido, até se tornar uma verdade mentirosa?

Ela não queria, ou não aguentaria, ou não suportaria saber a resposta errada. E preferia fingir que não tinha nada a dizer. E escrevia e apagava as linhas, e inventava tantos diálogos, tantas palavras, dissertava e confrontava e discutia. Postergando uma resposta que não saberia mais esperar, mas que continuava intocada. Adiando um não.

sábado, 7 de maio de 2011

É que eu preciso dizer que eu te amo

Porque eu sei que você nunca vai ler, posso escrever que ainda te amo escondido e sem você saber e que fantasiei tantas vezes que você também me ama escondido e sem eu saber. Que cada vez que o telefone toca eu penso que podia, pelo menos podia, ser você. Ou porque eu sei que você nunca vai ler, eu escrevo sobre o dia que eu te esperei ingenuamente, aquele dia que você desmarcou em cima da hora por causa de outra, pelas tantas vezes que você preferiu insistir que ela era mais interessante que eu. Posso escrever até que eu torço secretamente pra que ela te esqueça, pra que as outras todas te esqueçam, e que assim, quem sabe, você perceba que eu te amo escondida e sem você saber. Porque eu sei que você nunca vai ler, posso ser cruel e querer que nenhuma delas te responda nunca mais nenhuma mensagem, que todas elas percebam seu medo gigantesco de se comprometer, que todas descubram que você é um canalha perdido, do seu medo do mundo de gente grande e da sua falta de ambição. Que você não sabe dizer eu te amo, que você detesta aliança e que tem pavor de casamento e qualquer palavra que remeta a ele. Porque eu sei que você nunca vai ler, posso então contar que eu não aguento mais ouvir todas as suas histórias malsucedidas, nem lamentar todas as suas frustrações, nem satisfazer todas os seus egos e machismos, nem fingir que acho graça de todos os seus deboches. Só porque eu sei que você nunca vai ler, posso escrever que duvido que alguém te queira tanto apesar dos seus defeitos, que tenho certeza que nenhuma delas suportaria, até de bom grado, todos seus erros. Porque eu sei que você nunca vai ler, eu escrevo como se você fosse ler, disfarçando e aumentando cada linha pra você não entender que, na verdade, você é você, me escondendo até dentro de uma declaração pública, me enganando até dentro do meu próprio verso.

Porque, no fundo, eu sei que você vai ler.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Chorava todo mundo, mas agora ninguém chora mais

Com o primeiro aprendeu a chorar escondida no banheiro; com o segundo, que chorar até virar água pode emagrecer. Com o terceiro, aprendeu que dói mesmo quando a lágrima seca; com o quarto conheceu o choro da culpa de não amar tanto quanto podia. Com o quinto, soube o que era o choro covarde. Com o sexto, aprendeu a engolir lágrima em seco. Com o último, chorou temporal, e aprendeu a não chorar nunca mais.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Não sabendo que era impossível

Eu podia ter falado eu te amo antes dele ir. Podia ter pedido pra ele ficar. Podia ter dito que queria mais do que ele me dava. Podia ter ligado de volta quando vi a ligação perdida. Podia ter convidado ele pra subir e tomar uma cerveja. Podia ter deixado ele me levar em casa de manhã. Podia ter ido conhecer a casa dele. Podia ter falado a verdade quando ele me perguntou. Podia ter sido mais direta naquele dia na festa. Podia ter pedido pra ele não atender o telefone. Podia ter dançado só mais aquela música. Podia ter ficado pra dormir. Podia ter contado que sentia saudade. Podia ter comprado aquele vôo em cima da hora. Podia ter atendido a ligação no dia seguinte. Podia ter escutado mais uma vez a nossa música. Podia ter perdoado aquela vez. Podia ter ficado até a festa acabar. Podia ter chorado em vez de ter esquecido.

E isso tudo me passou pela cabeça vendo uma cena de 5 segundos de um filme. Mas ela foi lá e fez.

terça-feira, 15 de março de 2011

Eu fui às touradas em Madri

Ela nunca acreditou em inferno astral, quarta-feira de cinzas, essas coisas inventadas pra justificar mau humor até que viveu uma quarta-feira de cinzas de dois meses. Justo. O ano longe tinha sido um carnaval de 365 dias. E ela sabia que outro daqueles seria difícil de acontecer. Quando chegou, na neve e no frio, ela não imaginava o que lhe esperava. Não teve tempo de sentir medo. Em outra língua dá pra sentir medo? Ela nunca chegou a descobrir. Sabendo que sua folia tinha prazo de validade e que sua máscara de colombina não seria tirada pelo menos pelos próximos 12 meses, ela aproveitou cada segundo, cada dança, cada pierrô, cada gole. Que não a levassem a mal, por favor. Era carnaval.

E assim foi até a última noite, quando Madri se esquentou depois da chuva pra lhe dizer adeus. E ela não se deu conta que além da casa, dos amigos, dos amores, deixava ali ela mesma. Uma foliona corajosa que se pintou sem medo (em outra língua dá pra sentir medo?), se fantasiou do que queria ser e se perdeu na sua própria fantasia. Que não cansou de brincar carnaval por 365 dias. Mas não esperava a ressaca da quarta-feira interminável.

De vez em quando ela tenta encontrar a fantasia perdida no armário e se veste de espanhola, mas é tudo da boca pra fora. Ela foi às touradas em Madri e não voltou mais aqui.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

É como se o amor doesse em paz

Quando chegou, no inverno e na neve, ela só sentia saudade. Da praia, da samba, do suor, do flanelinha, do camelô, do trocador. Sentia saudade do pior, também. Mas sentia, acima de tudo, saudade da gente. Até que conheceu nova gente, que aos poucos, ou 'poco a poco', foi tratando de amenizar a dor. E aí ficou mesmo só a saudade. Mas "sem dor?", perguntavam. Ela explicava que não era nada disso que eles conheciam. Era uma coisa nossa, que mais ninguém sabia sentir. "Era como se o amor doesse em paz", se apoderou das palavras do poeta pra tentar explicar. "E pode o amor doer em paz?", questionaram outra vez. Ela não sabia responder.

E depois, quando voltou, também no inverno, foi tanta chuva que virou água de dentro pra fora, e ela sentiu outra vez aquela coisa doída. Saudade do parque, do rock, do ventinho frio, do chinês, da fila da boate de madrugada. Sentia saudade do pior, também. Mas, acima de tudo, sentia saudade da nova gente. E perguntaram, do outro lado do oceano, "saudade, mas já?". Parece que a gente nasceu pra sentir saudade. Pode ser que a exclusividade da palavra tenha mesmo um motivo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Meu primeiro amor

Ela só tinha 17 anos e não tinha ideia do que fazer da vida. Nem do quanto era capaz de se apaixonar. Se conheceram num dia de namorados. Ela tinha acabado de perder o primeiro. Alguns dias depois soube que não havia como voltar atrás.

Ele seria o primeiro em quase tudo. Primeiro que a fez mentir pros pais. Primeiro que a fez matar aula. Primeiro que a fez chorar no meio da rua. Primeiro que a traiu. Primeiro de todas as loucuras adolescentes que se vê nos filmes. Foi o primeiro homem que ela teve. Não o primeiro na verdade, mas o primeiro pra ela - o que na verdade ele nunca suportou. Também tinha 18 anos e também não tinha ideia do que fazer na vida. Também não sabia o quanto era capaz de se apaixonar.

Mas acabou que ela também foi a primeira em quase tudo. A primeira que ele levou pra casa dos sonhos, a primeira que ele quis passar o reveillon. A primeira que o fez dizer eu te amo. A primeira que ele se arrependeu de ter traído. E como eram jovens, imaturos e apaixonados, não deu certo. Um dia ele viajou sem ela saber. Ela entendeu que depois de tantos fins, tantos choros, tantos risos e tantas loucuras, era hora de ir. Foi a primeira vez que ela foi recional no amor. E desde então nunca mais deixou de ser.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Eu me recuso, faço hora, vou na valsa

Sentada no banco do metrô, ela esperava o próximo trem e não entendia o que sentia. Podia ser que a saudade tivesse lhe dado uma trégua de algumas horas. A verdade é que ela se sentia tão em paz sentada naquele banco de concreto daquela estação de metrô que não se importou quando viu no mostrador que ainda demorariam dez minutos para o próximo trem. Não lhe importava esperar porque ela não tinha pressa. Ela que sempre havia tido pressa, entendeu que pela primeira vez o tempo lhe dava tempo. Espaço aos minutos, às horas, aos dias e aos meses que ainda lhe faltavam para decidir. Ela esperaria o momento certo e aí saberia o que deveria saber. Enquanto isso, aproveitaria tudo o que o tempo ainda podia lhe oferecer. Pelo menos até a chegada do próximo trem.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Se eu não tenho o meu amor, eu tenho a minha dor

Estou pensando em você não porque ainda te ame ou porque tenha te amado mais que aos outros, mas porque você foi o último homem que amei. E talvez por isso, ou pela ausência de qualquer pessoa que me ame num raio de milhares de quilômetros, eu tenha pensado em você. E chorado. Não pela saudade do que vivemos, mas por uma saudade maior de tudo que já vivi com todos os outros, e por esses pequenos momentos de intimidade únicos daqueles que se amam, por essa felicidade partilhada. Que não partilhei só com você, mas que me permiti partilhar pela última vez contigo. Estou pensando em você, porque me dói a dificuldade adquirida de não pensar em mais ninguém. Não pense que é uma carta endereçada a você unicamente, e nem se desespere por isso. É sim uma carta de amor, pra mim mesma, para e de alguém que não soube amar a mais ninguém, mas que ainda tem, apesar de toda racionalidade acumulada no peito, uma enorme vontade de amar outra vez.